De quem e para quem?

Por Isabela Jordão

A geração Y não sabe ouvir “não”. Nascidos e criados em um cenário distante das guerras do século 20, em novo milênio e com perspectivas de maior qualidade de vida, nossos jovens mantêm a estranha convicção de que desejos servem para ser atendidos.

Como era de se esperar, tal ousado paradigma seria expresso no âmbito legislativo. Afinal, tudo é direito, não é? Moradia, educação, saúde, felicidade, bem-estar social, vida  – esse, agora nem tanto… É obrigação estatal assegurar um parque de diversões com piso acolchoado para que a nova leva da sociedade possa experimentar de tudo sem repressões, restrições ou consequências.

Já os deveres, essenciais… que curioso! Parecem sempre ser para cumprimento do outro, normalmente referente à aceitação de nossa vontade. Nunca parece ter passado pela nossa cabeça que talvez um dever se refira à abnegação de si mesmo em prol de terceiros. Não mesmo. A vontade própria exerce senhorio inabalável sobre nós, então é melhor — e mais fácil — reprimir o julgamento moral do outro. Se discordarem de nossas exigências, chamamos de preconceituosos. Eles devem estar errados. Sempre tão retrógrados…

Não precisa ser nenhum literato ou amplo conhecedor das figuras de linguagem para perceber a ironia latente da situação. Exigimos muito, nos doamos pouco ou nada. Filhos de gerações sobreviventes a guerras, regimes autoritários e recessões econômicas, em  vez de resolvermos nossas insatisfações pessoais no âmbito privado, levamos todas elas a contexto público, para que sejam resolvidas por juízes, vereadores, deputados e qualquer outra pessoa que não a única capaz de arcar com as próprias questões: nós mesmos.

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